Meg é uma fisioterapeuta de 26 anos, que se casou há quatro. Desde então viveu atormentada com a cobrança de todos em sua volta: “quando vem o bebê?” O marido, o único que não insistia no assunto, não conseguia esconder a profunda decepção quando a ouvia dizer não estar certa de querer filhos. Não suportando a pressão, Meg parou de tomar pílula e pouco depois engravidou. “Eu não aguentava mais! Minha sogra começou a me tratar diferente, meus pais tentavam me convencer de que assim eu perderia meu marido, até minhas amigas diziam que eu tinha medo de crescer. Eles venceram...vou ter um filho. Mas estou preocupada. Acho que não vou ser boa mãe; não tenho a menor vontade de cuidar de criança.”

Ouvindo o caso de Meg, lembrei-me de Kate Middleton. Como deve estar se sentindo a mulher do príncipe William, com a cobrança que lhe fazem por um herdeiro? A família real inglesa e os súditos não estão gostando nada de um ano após o casamento não haver notícia de um bebê a caminho.

 

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Será que todas as mulheres inquietas quanto à maternidade desejam realmente ter filhos?

Como é difícil escapar dos modelos! Apesar de a mulher ter se emancipado em vários aspectos, a maior expectativa que ainda hoje se tem em relação a ela é que seja mãe. Não é raro olharem com piedade para as mulheres que não têm filhos e criticarem as que não querem tê-los. A pressão ideológica é tanta que é raro encontrar uma mulher com mais de 35 anos que, não tendo filhos, esteja tranquila quanto à possibilidade de nunca vir a ser mãe.

Com o passar do tempo, algumas tomam decisões que não podem mais ser adiadas: escolhem qualquer homem para ser pai do seu filho ou então, em uma medida mais extrema, buscam num banco de sêmen um doador desconhecido. Será que todas essas mulheres inquietas quanto à maternidade desejam realmente ter filhos? Ser mãe seria então um desejo inerente à natureza da mulher, que só assim alcançaria a plena realização? Não acredito em nada disso. Mesmo porque a maternidade, como vários outros aspectos da nossa vida tidos como inquestionáveis, tem uma história.

Em todas as épocas e lugares, a partir da instituição do patriarcado, há cinco mil anos, era comum o homem repudiar a mulher e se casar novamente. Para isso não faltavam pretextos e um dos mais convincentes era o não nascimento de um filho. Afinal, ele queria ter um herdeiro ou mais braços para ajudá-lo no trabalho. O contrato de casamento era feito entre as duas famílias e, caso a mulher não procriasse, era devolvida aos pais ou ia para um convento. O casamento só se tornou indissolúvel a partir do século 13, quando a Igreja passou a controlá-lo. Entretanto, observando a forma como as mães se relacionavam com os filhos nos séculos 17 e 18, fica claro que não somente o desejo ter filhos, mas também o amor materno, não é inerente às mulheres. É um sentimento que pode ou não se desenvolver, dependendo dos interesses sócio-econômicos de um grupo.

 

Naquela época a amamentação passou a ser considerada ridícula e repugnante e não era considerado digno uma mulher amamentar seu próprio filho. Só para ter uma ideia, das 20 mil crianças nascidas em Paris, em 1780, menos de mil foram amamentadas pelas mães. Todas as outras foram morar com amas-de-leite, na maioria das vezes mulheres doentes, que nem leite tinham. Os pedagogos recomendavam aos pais frieza em relação aos filhos, lembrando-lhes incessantemente sua malignidade natural, que seria pecado alimentar. E as mães eram criticadas duramente caso demonstrassem ternura. A finalidade da educação era salvar a alma do pecado; para isso não se poupavam argumentos para convencer as mães de que as crianças deveriam ser severamente castigadas.

Mas houve uma grande reviravolta. A inclusão da ideia do amor romântico como possibilidade para o casamento, junto a outras várias influências, transformaram as mentalidades a partir do final do século 18. Com o surgimento das fábricas e escritórios, a área doméstica começou a se opor à área pública, cultivando-se a casa como lar e a necessária privacidade. Ocorreu então o que alguns autores denominam “a invenção da maternidade”. O novo papel da mulher, a mãe idealizada, originou uma nova concepção de feminilidade. A imagem da esposa e mãe reforçou um modelo diferente para os dois sexos das atividades e dos sentimentos. Associou-se maternidade a feminilidade, como sendo atributos da personalidade.

No século 19 várias teorias foram criadas sustentando que o único prazer da mulher era ter filhos e criá-los, e que ela não se interessaria por sexo. Seu aparelho genital serviria tão somente à procriação. O fato de ser capaz de ter filhos passou a significar que os desejaria naturalmente. Claro que essas ideias, além de comprometerem a sexualidade feminina, atuam como pressão ideológica. Muitas mulheres acreditam que desejam filhos sem que esse desejo realmente exista. Quando o condicionamento cultural é muito forte, ao nos tornar adultos não sabemos mais diferenciar o que desejamos realmente e o que aprendemos a desejar.

Atualmente outra grande transformação está em andamento. Para as mulheres que julgam que sua realização pessoal depende do êxito profissional, a questão da maternidade se coloca em outros termos. Elas têm filhos cada vez mais tarde e esperam de seus parceiros uma divisão igualitária nos trabalhos domésticos e na educação das crianças. E a crescente rejeição aos modelos tradicionais de comportamento permite que se percebam com mais clareza os próprios desejos. Ter ou não ter filhos passa a ser uma opção individual, longe da cobrança de corresponder ao modelo imposto de mulher ideal.

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